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sexta-feira, 2 de setembro de 2022

 SOBREVIVENTES VERSUS GUERREIROS

O cancro não é uma batalha para ganhar ou perder. As pessoas com cancro não são nem guerreiros nem heróis. Pelo contrário, têm uma doença. As pessoas que têm diabetes ou doenças cardíacas não são rotuladas como combatentes. Não estão a travar uma batalha corajosa com os seus corações após um evento cardíaco. Nem mesmo a COVID merece o estatuto de guerreiro. Ou se consegue ou não se consegue, ou se sobrevive ou não se sobrevive. 

Não lhes é dito que "ter uma atitude positiva" irá curá-los, e que se a doença "vencer" a culpa foi deles próprios. Pensamentos e orações não irão tratar o cancro. Os obituários afirmam que "e assim perderam a sua corajosa batalha contra o cancro". Isto implica que perderam, que não lutaram o suficiente? Eles falharam????

Não somos corajosos ou fortes simplesmente porque tivemos quimioterapia, radiação ou cirurgia. Somos pacientes que estamos a ser tratados por termos uma doença. O cancro é desafiante, doloroso e cansativo, tal como a pneumonia, esclerose múltipla, artrite reumatóide, parkinson e muitas outras doenças. Um diagnóstico de cancro não é um caminho rápido para o heroísmo. Por vezes mata o doente e por vezes os tratamentos funcionam bem ao pará-lo.

Esta semana partiu o ARTUR, um amigo muito próximo, e também um colega da associação, um verdadeiro "guerreiro" como gostam de nos chamar... lutou a sério e com muita garra... so tinha o cancro há 4 anos, no entanto esgotou todas as linhas de medicação, ele era daqueles que tinha muita esperança na cura... não lhe valeu de nada... 

Enquanto eu em 6 anos estou na segunda linha ele em 4 esgotou 5! Não! Não era porque eu fosse mais guerreiro que ele... muito pelo contrário... ele tinha sempre uma atitude positiva e de esperança, mas o cancro dele era considerado agressivo o meu moderado e isso faz toda a diferença...

O cancro não se vence, umas vezes ele deixa-nos sobreviver outras mata... há cancros curáveis e é muito fácil vencer esses cancros, impossível é vencer os incuráveis... dentro do mesmo tipo de cancro há os mais agressivos e os menos agressivos... não se trata de uma guerra...

Não sou nem um soldado nem uma inspiração, mas estou vivo. Um dia esta doença vai acabar com a minha vida, mas por enquanto ainda sou um SOBREVIVENTE!



Até sempre Artur




domingo, 5 de setembro de 2021

5 Anos de Sobrevida!

 


E assim cheguei ao 5º ano de sobrevida... Não foi fácil mas foi o possível...! No início deram-me como limite 5 anos pois a estatística da altura apontava para apenas 9% de sobreviventes ao fim de 5 anos... A ultima atualização do site da  American Cancer Society  refere 13%, o que é bastante bom apesar de pouco.

Há cinco anos não achava que fosse possível chegar aqui, mas passito a passito cá cheguei. Como foram estes 5 anos? Posso considerar várias etapas segundo a minha qualidade de vida. 


2016-2018 - 1º linha de tratamento

Após um breve período inicial com o tratamento do Sunitinib, com muitos e severos efeitos secundários que me retiravam muita qualidade de vida, aceitei a sugestão da minha médica de passar para o Pazopanib que, apesar de ter também muitos efeitos secundários, não eram assim tão severos. A partir daí deixei de ter o síndrome de mão-pé (punha-me as mãos e os pés em ferida), o que só por si foi uma lufada de ar fresco na minha vida. Contudo, durante todo esse tempo sofri dos outros efeitos secundários: náuseas, por vezes vómitos, diarreias, tensão hiper alta, azia, branqueamento da pele e do cabelo, sangramento e ardor das gengivas, etc...
Esta mudança de tratamento devolveu-me qualidade de vida e permitiu-me fazer algumas viagens e trekkings que eu já julgava impossíveis de concretizar. Isso deu-me bastante alento e força para continuar esta luta e conseguir ter a par dos tratamentos muitos momentos de eternidade ou felicidade... Claro que todas as minhas viagens foram feitas segundo as indicações da minha médica Drª Ana Opinião, do IPO de Lisboa, a quem devo toda a sua dedicação no sentido de me ajudar a concretizar as minhas viagens com listas intermináveis de medicação e conselhos para fazer face a todas as hipotéticas situações que pudessem surgir, nomeadamente nas montanhas, assim como paragens pontuais da medicação para me ajudar nas atividade mais exigentes fisicamente (paragens essas sem colocar em causa o sucesso terapêutico).


2018-2020 - Progressão para os ossos

No final do verão de 2018, comecei a sentir dores cada vez mais fortes e depois de alguns exames concluiu-se que tinha havido progressão para varias localizações ósseas, nomeadamente, cervical, dorsal, lombar, ilíaco e fémur, além de um arco costal direito. Nesta fase sofri grandes dores tratadas com morfina e outros sedativos que ao fim de algum tempo conseguiram devolver me paz de espirito. Todas estas lesões ósseas foram alvo de radio cirurgia na Fundação Champalimaud, uma vez que o IPO se recusou a aplicar o tratamento porque eram mais de 3 metástases... e ainda uma intervenção cirúrgica na CUF porque uma das vertebras colapsou e teve de ser substituída por próteses, além de várias injeções de cimento ósseo nas vertebras dorsais e lombar. Depois desta fase de tratamentos das lesões e mudança da terapêutica sistémica para o Axitinib, com efeitos secundários mais extremos, regressei novamente a uma situação de mais ou menos normalidade o que me permitiu voltar às minhas viagens, mas sem a componente de trekking... a vida é uma sucessão de etapas e em cada uma temos de nos adaptar ao que nos é possível fazer...


2020 até agora - Dificuldades de locomoção

No inicio de 2020, comecei a sentir algumas dores na perna esquerda e no curto espaço de 3 meses deixei de me conseguir deslocar sem o auxílio de muletas. Após muitos exames, tacs, ressonâncias, e eletromiogramas, o veredicto das duas instituições - IPO e Fundação Champalimaud - e dos vários técnicos envolvidos, foi de que não houve progressão das lesões (muito pelo contrário, houve até algumas diminuições significativas) e a situação ficou-se a dever à destruição de alguns nervos na zona do ilíaco, nomeadamente o ciático e safeno, entre outros, por sequela da radio cirurgia havida nessa zona... ou seja, não se morre do mal, morre-se da cura. O facto é que desde essa altura até agora todas as minhas lesões ósseas ou estão estáveis ou apresentam regressões evidentes... do mal o menos. Nesta fase fiquei com a mobilidade muito reduzida, consigo andar de muletas (ou canadianas, conforme preferirem chamar) mas apenas curtas distâncias. Para distâncias maiores recorro à cadeira de rodas. Melhorei alguma coisa com a fisioterapia, mas apenas me impede de ficar pior. 
Esta situação tem sido a mais difícil de gerir e aceitar, embora a minha força de vontade consiga mais uma vez voltar à tona de água, pois ainda consigo conduzir (troquei o carro para um de mudanças automáticas e isso ainda me permite ter alguma autonomia), ir almoçar com os meus amigos, ir sozinho à fisioterapia, etc.. Mas é todo um processo de aceitação e desapego que temos de permitir o cérebro fazer...

Em todo este processo tenho vários fatores a destacar que me têm ajudado a palmilhar o meu caminho:

  • Conseguir concretizar ainda alguns sonhos, apesar da quimioterapia permanente...
  • A criação da Associação de Cancro do Rim de Portugal - AC RIM, que me tem ocupado muito tempo, e cuja entrega e dedicação me têm ajudado a sentir útil e a dar um sentido à minha sobrevida;
  • O meu núcleo familiar mais chegado, a minha Helena, os meus filhos, o meu irmão e família e alguns amigos que ficaram e eu tanto prezo... que me ajudam tanto... mesmo que às vezes não o saibam...
  • A ajuda da minha sócia que tem sido fundamental para a manutenção e crescimento da sociedade que levei uma vida a construir...
  • A Deus por me permitir ir sobrevivendo e sobretudo por me ajudar a aceitar cada etapa da minha vida recente.

Por isso perguntam-me foi fácil? Não, não foi... mas durante todo este tempo vivi muitos momentos de alegria, entrega, partilha, entre ajuda e muitas outras coisas que me fizeram evoluir enquanto ser humano e tornar-me uma melhor pessoa...


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

 Mudança, Viver a vida, um dia de cada vez!


Há bastante tempo que não escrevo aqui nada...  Não me tem apetecido... E porquê? Talvez tenha passado um tempo de introspeção, também um tempo de luto e em simultâneo um tempo de aceitação... Por outro lado sentia que devia escrever algo principalmente para quem me lê e tem a mesma doença ou semelhante, pois a ausência podia ser confundida com a minha partida e eu pretendo continuar a dar o meu testemunho enquanto puder.

Em meados de Março do ano passado comecei a sentir menos força na perna esquerda e algum descontrolo do pé esquerdo, imediatamente pensei que seria progressão da doença e dirigi-me de imediato à fundação Champalimaud para fazer ressonâncias magnéticas à coluna para conhecer o estado ou o avanço das metástases ósseas principalmente as do ilíaco e fémur. Sim tive de ir à fundação graças ao meu seguro de saúde pois no IPO como devem calcular iria demorar muito tempo a marcar estes exames e muito provavelmente ressonância magnética o exame mais adequado neste caso, o IPO não o ia permitir pois o custo é muito elevado... Assim é o nosso tão apregoado Serviço Nacional de Saúde.

Depois de muitos exames, ressonâncias, tac's e eletromiogramas, concluíram os médicos tanto do Champalimaud como do IPO que a radio cirurgia que fiz ao ilíaco (bacia) tinha deixado sequelas (radicite) que me afetaram o nervo ciático entre outros de uma forma irreversível (não se morre do mal morre-se da cura). Não sendo as minhas queixas derivadas de progressão da doença pois todos os exames relevaram estabilidade das lesões concluiu-se que foi efetivamente um efeito secundário da rádio. Este processo de degeneração foi rápido e em pouco mais de um mês fiquei com duas canadianas e com muita dificuldade de locomoção.

Como devem calcular tudo isto foi um inesperado e duro golpe.... obrigou me a trocar de carro para outro de mudanças automáticas, obrigou-me a modificar toda a minha vida diária e sobretudo obrigou me a confrontar com a minha imobilização motora. Passei a fazer fisioterapia duas vezes por semana, o que me tem ajudado bastante pois é quase certo que sem a fisioterapia estaria já completamente imobilizado numa cadeira de rodas. Foram dias muito duros até fazer o luto da minha situação anterior e aceitar a atual. Aceitar que se acabaram as viagens, aceitar que se acabou grande parte da minha autonomia, aceitar que se acabou a minha capacidade de caminhar livremente, aceitar o aumento progressivo dos meus problemas físicos derivados da doença, sei lá que mais..., tem sido um grande esforço de aceitação e daí também o meu silêncio....

Neste momento estou assim, mais fechado em casa, tirando os dias que vou à fisioterapia ou aos hospitais fazer exames e alguns passeios até à Ericeira e pouco mais. Valeu-me o verão e o uso da piscina para me dar alguma qualidade de vida... Consegui ir de férias para o Algarve, escolher um hotel com acesso próprio à praia, ia e vinha de canadianas e consegui inclusive ir ao banho com elas. Foram duas semanas divertidas juntamente com a família e apesar das tempestades temos de  continuar recetivos à alegria e diversão para podermos continuar a sentir momentos de eternidade... Uma outra forma muito diferente de viajar... Uma outra forma de viver a vida, depois da tempestade vem a bonança só que neste caso temos de ser nós o veículo dessa bonança pois a vida é feita de Mudanças e para cada mudança temos de fazer um luto e uma aceitação principalmente quando as mudanças são para pior... mas o mais importante mesmo é que consigamos fazer o luto do que vamos perdendo, aceitar as limitações decorrentes dessas mudanças e conseguir, um dia de cada vez vivermos com o mínimo de felicidade...

É importante para quem vive um processo de transformação assim, praticar um desapego efetivo sobre as coisas boas que deixamos de ter, uma aceitação de facto das novas situações e limitações que nos surgem porque sem o desapego e a aceitação é impossível viver este processo chamado cancro com o mínimo de qualidade de vida, porque a principal componente da nossa qualidade de vida está no nosso cérebro e na nossa atitude...

O cancro é um processo mais ou menos lento em que vamos perdendo coisas que são dadas como adquiridas e que achamos que são intrínsecas a nós próprios... Desenganem-se, nada é adquirido! No processo de morte do corpo podemos mesmo perder tudo ou quase tudo... No meio desta doença nunca me tinha passado pela cabeça que poderia um dia deixar de andar... logo eu que o meu desporto favorito eram as caminhadas e o montanhismo... enfim.... e como o andar muitas outras coisas que temos podemos perder rapidamente, todos os 5 sentidos e muito mais...

Por tudo isto, temos todos, os doentes de cancro e não só, tambem as pessoas saudáveis que estar disponíveis para aceitar as mudanças que vão acontecendo na vida de todos nós, porque na vida tudo está sempre em mudança, mesmo quando nos parece que está tudo estático, há sempre qualquer coisa a mudar....

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Não tenho medo da morte!

É verdade... a morte em si não me provoca medo.... o que está para além da morte?... não sei porquê mas isso ainda muito menos medo me provoca... Nem sequer ocupo tempo a pensar o que será que vem depois... é irrelevante... se não houver vida depois da morte, é um clique.... apaga-se se a luz e acaba-se tudo... literalmente... é o descanso e a paz eterna... Se houver alguma coisa depois da morte não tenho qualquer espécie de dúvida que será melhor do que aquilo que temos aqui... se pensarmos bem.. à nossa volta vive o sofrimento generalizado.... uns porque sofrem realmente... outros porque imaginam que sofrem mas cuja dor é tão intensa como se sofressem de verdade... uns porque alcançam quase tudo mas nunca alcançam aquilo que verdadeiramente anseiam... outros porque por mais que tentem nunca alcançam nada...
Sim porque a vida real não é o desfile de vidas perfeitas do facebook e do instagram... a vida real é a parte secreta, aquela que não se mostra a ninguém... e que muitas vezes é proporcionalmente tão negra quanto mais brilhante é a que mostram e disto amigos sofremos todos, como diria alguém... só não conta quem não quer.... por isso caros amigos não tenho dúvidas, depois da morte... a existir algo só poderá ser algo de bom....

Confesso que tenho algum medo da dor física causada pelo aproximar da morte, mas ao mesmo tempo acredito que neste momento a classe médica consegue evitar o sofrimento físico não só através de medicamentos para inibir a dor como também algum aceleramento do processo de morte quando já não há outra solução, o que quase anula o medo da dor...

Assim sendo... a morte traz me algum sofrimento? SIM, Bastante!

Para mim, o sofrimento inerente à morte é a separação, o corte, o afastamento, a despedida, sim porque o mundo não pára quando morrermos... a nossa morte é completamente ignorada pelo carrossel da vida... nada pára, nada acontece quando morremos, nós partimos... apenas... uma partida irremediavelmente sem retorno... e sim... sofro bastante com isso... todos sofremos, os que partem e os que vêem partir... mas quem parte não volta mais.... e penso muitas vezes no que vou perder... os sorrisos, os gestos, as vidas, as histórias dos meus familiares mais diretos, como vai ser a vida deles...como vão ser os filhos deles... tudo, tudo o que eu já não vou poder assistir... o desligar dos meus entes queridos... essa dor dilacerante que vou sofrendo todos os dias um bocadinho... como se eu vivesse um desligar contínuo e progressivo mas ao mesmo tempo sem progressão alguma porque por mais que tente o desapego ele não acontecerá enquanto eu viver.... sim, porque eu posso me desapegar das coisas materiais... mas das pessoas não tenhamos ilusões....ninguém no seu perfeito juízo consegue tal proeza com os seus entes queridos vivos... é impossível, é humano...

Assim, vou por vezes antecipando a minha morte na medida em que tenho perfeita consciência que vivo um processo de despedida... embora o tente relativizar no dia a dia, ele está sempre presente, tal como a doença... já me custou mais... neste momento são apenas pensamentos serenos, um pouco tristes mas serenos e às vezes consigo mesmo ter um pouco de alegria principalmente quando tento congelar na memória os momentos felizes com os meus entes queridos... nessas alturas é um misto de serenidade, tristeza e contentamento... é difícil explicar.. mas não é de todo mau....é o meu caminho....

Cada um trilha o seu caminho da melhor forma que consegue... eu vou trilhando o meu conforme vou conseguindo, uns dias melhor... outros pior... mas o tempo trata de relativizar as coisas, de reduzir os impactos, de nos propiciar uma certa aceitação ou outras vezes uma espécie de resignação que acabam por nos serenar e conseguir fazer pensar nas coisas com bastante menos sofrimento e por vezes anulando-o mesmo por completo... são momentos é certo... mas a vida é feita de momentos...

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Instinto de sobrevivência

O cancro não é só por si um estado de alma, nem um conjunto de emoções, o cancro é um processo... mais curto ou mais longo conforme a esperança de vida de cada um.... um processo lento de assimilação de perdas.

No inicio quando nos deparamos com o diagnóstico sentimos uma grande, uma enorme perda! Sentimo-nos como se tivéssemos perdido tudo... e é uma perda tão grande que não conseguimos fazer praticamente nada... sentimo-nos perdidos e desorientados... incapazes de raciocinar e sobretudo de absorver seja o que for.. porque a perda é tão grande que não a conseguimos processar... Nessas alturas ficamos completamente dependentes do instinto natural de sobrevivência.

No meu caso eu nunca tinha ido a um psicólogo, nem sequer me passava pela cabeça pois até aí eu sempre tinha conseguido resolver todos os meus problemas sozinho... sem questões de maior... Mas naquela altura o desespero e a confusão foram tão grandes que eu tive necessidade de consultar um: à procura de alguma ajuda, pois sentia que o problema era demasiado grande para mim... O instinto de sobrevivência levou-me a procurar ajuda... mesmo sem saber se estava a fazer bem ou mal...

Numa segunda fase, quando nos começamos a habituar à ideia, vamos conseguindo separar as coisas, delimitá-las, como se conseguíssemos cortar o tempo que nos resta em fases. E tentamos situar-nos numa das fases, no meu caso, como existem 3 linhas de tratamento, comecei logo a ver aí uma divisão para me situar.... e claro "agarrei-me" logo ao facto de estar ainda na 1ª linha.... e comecei a tentar sentir algum conforto com isso... a lei da sobrevivência é qualquer coisa de muito forte... ela leva-nos a mudar tudo dentro de nós, no sentido de continuarmos vivos.... é comum ver as pessoas em fase terminal a depositarem esperança em tratamentos, cirurgias e alternativas que as pessoas que estão de fora, na sua lucidez, sabem que são esperanças vãs. Todos nós achamos uma perfeita loucura a pessoa estar a acreditar numa esperança tão vã e tão inverossímil mas é mesmo assim, toda essa loucura que não conseguimos entender é apenas o instinto de sobrevivência a atuar.... hoje não duvido... o Homem nasceu para sobreviver.... é o grande vetor que nos move e que nos determina... o resto são mero efeitos de percurso.... porque no final o que importa mesmo é a sobrevivência.....

Começamos por determinar fases e depois de nos encaixarmos numa fase, ainda a subdividimos mentalmente, para com isso ganharmos mais espaço, vamos até ao minúsculo e vivemos um dia de cada vez.... Embora esta frase seja ultimamente muito usada, poucos sabemos o que é mesmo viver um dia de cada vez...é necessário estarmos "encurralados" para conseguirmos viver numa aproximação do dia de cada vez...Ninguém no seu estado normal, sem ter um grande problema, consegue viver um dia de cada vez... por mais que pensem que sim... enganam-se, porque muitas vezes dizemos que estamos a viver um dia de cada vez mas, simultaneamente, o nosso inconsciente vive no pressuposto da eternidade.

Pessoalmente, apenas consigo viver um dia de cada vez: abstraindo-me das coisas, focando-me nas tarefas diárias, principalmente no trabalho porque como o mesmo exige concentração é uma ótima terapia para me conseguir abstrair do resto, da doença, da incerteza do futuro, etc.. Por isso, eu tento o mais possível continuar com as minhas rotinas diárias, principalmente o trabalho...

O instinto de sobrevivência leva-me a pensar apenas que ainda estou na primeira linha, sei perfeitamente que num prazo, mais ou menos, breve vou deixar esta linha e iniciar um novo medicamento... mais forte e com mais efeitos secundários... sei perfeitamente que mesmo essa segunda linha vai um dia também deixar de fazer efeito e iniciarei o ultimo percurso em termos de medicação... sei que essas linhas se esgotarão mais depressa do que esta em que estou... mas ao mesmo tempo tento não pensar nisso, tento focar-me no facto de ainda estar na 1ª linha e viver o mais intensivamente que posso....Para quê sofrer por antecipação?

Esta questão não é apenas útil para quem tem cancro, aplica-se em infinitas situações das nossas vidas e pode fazer a diferença entre entrar em estados depressivos e encarar a vida de frente de uma forma positiva!

O instinto de sobrevivência vive dentro de nós... faz parte da nossa natureza humana, há que aproveitar esse instinto e transformá-lo numa terapia de motivação para a vida, ele está lá... só necessita que o deixemos vir ao cimo e dar lhe asas para voar!

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Praticar o Desapego

Praticar o Desapego

Este é um tema verdadeiramente difícil para mim...  Os seres humanos têm a necessidade intrínseca de criar vínculos com coisas, plantas, animais, pessoas, situações e até emoções, no fundo criam-se vínculos com quase tudo aquilo que nos rodeia... Neste sentido também eu passei a vida a colecionar coisas com as quais criei vínculos... pequenoss vínculos... como a horta, a minha casa, os meus periquitos, o meu papagaio, o meu carro... grandes vínculos como a minha família, a minha mulher, os meus filhos... os meus pais, o meu irmão, os meus sobrinhos, as minhas cunhadas... e todos os meus familiares mais chegados e outros amigos mais recentes mas muito especiais com quem aprendi a viver melhor.... vínculos às coisas que fiz e me empenhei.... os meus empregos, a minha carreira profissional... os trilhos, o meu grupo de caminhadas... que eu criei... com todos os meus amigos das caminhadas que me acompanharam e ainda me acompanham por sábados e sábados... muitas coisas que fiz e me orgulho e ainda bem! as minhas atividades de montanhismo, bicicleta, corrida, etc...

Para mim existem pelo menos 3 grandes tipos de vínculos e apegos. Apegos a coisas materiais, apegos a situações que criamos ou foram acontecendo durante a nossa vida e finalmente, os apegos a pessoas. Antes de me ter sido diagnosticado o cancro eu não tinha muita noção destes apegos com exceção do apego às pessoas que me são queridas, pois se eu tinha as minhas coisas era porque eu as tinha conquistado e por definição elas eram minhas e seriam-no eternamente, porque eu vivia como a esmagadora maioria de nós.. no pressuposto da eternidade... todos nós sabemos que vamos morrer.. mas imaginamos isso num futuro tão longínquo que a morte não nos afeta nada no presente, e ainda bem que assim é, pois muito dura seria a vida se passássemos 24 horas de cada a dia a tomar decisões no pressuposto de que morreríamos no dia seguinte, aliás... parece-me que nesse caso o mundo nunca teria passado da pré-história...não é verdade?

Hoje apenas vou falar dos vínculos materiais e de situações pois no que respeita aos vínculos a pessoas considero que ainda não é a "hora", o que não quer dizer que eu não pense neles e não vá no meu cérebro praticando algum desapego apenas no sentido que sei que um dia destes terei que deixar as pessoas de quem gosto e que o mundo vai continuar na mesma velocidade... mas sobre isso falarei outro dia ... ou não... quem sabe?... 😊

Todos estes vínculos são neste momento para mim futuros pontos de rutura dos quais um dia destes mais cedo ou mais tarde irei ter de abrir mão, "desapegar"... Este desapegar como devem calcular é muito, muito difícil.... é uma perfeita tarefa hercúlea porque é um pouco como contrariar a nossa natureza, e como praticar este desapego? Como abrir mão do nosso controlo sobre coisas que desde sempre nos habituámos a liderar e aceitá-lo e entregá-lo? Como desapegar das nossas pequenas coisas sem sofrer? Como desapegar dos nossos entes queridos, família e amigos? Uma amiga minha que me ajudou muito no inicio deste processo e que pacientemente passou horas ao telefone a ouvir-me e falar e a dar me dicas que me foram verdadeiramente preciosas naquela altura e que me ajudaram a orientar os meus pensamentos disse me a dada altura... "e vais passar por uma fase em que vais começar a desapegar te das coisas... em paz e tranquilidade", na altura pensei: não... nem quero pensar nisso, isso não vai acontecer, mas não disse nada à minha amiga Ana, para não a desapontar... mais tarde, comecei de facto a sentir esse desapego a acontecer.... não porque eu quisesse mas porque as coisas foram evoluindo nesse sentido por força das circunstâncias...


No que respeita aos bens materiais nunca tive grande apego por exemplo ao dinheiro, sempre gostei de viver tranquilo com algum pé de meia que foi também ele evoluindo proporcionalmente àquilo que ganhava mas sempre apenas o necessário para adormecer tranquilo e acordar seguro... paguei sempre os meus empréstimos antes do prazo contratual... algo que me foi incutido desde pequeno por alguém que me deu grandes exemplos de vida, de ponderação e bom senso, de quem hoje tenho muito orgulho mas que nos meus tempos de juventude nem sempre dei o devido valor, o meu pai!

Se tenho alguma apego a coisas materiais só mesmo realmente à minha casa, o resto são pequenos vínculos dos quais mais ou menos facilmente me desapego e falo do meu carro (não da capacidade de conduzir), dos periquitos, da pequena horta e jardim, do gato, etc.. mas são todos eles pequenos vínculos que se tiver de os deixar não fico exageradamente triste... Quanto à minha casa isso já é outra história, mudei de casa imensas vezes... e no final consegui encontrar um local que me sinto mais feliz. Uma zona mais ou menos rural que me faz lembrar o local onde nasci e cresci mas a pequena distância de Lisboa, o suficiente para ter uma qualidade de vida quase campestre e ao mesmo tempo estar a 20 minutos da civilização. O objetivo era poder continuar a ter a minha vida profissional na capital e assim vim parar à zona saloia que adoro, apesar do clima atlântico um bocadinho agreste. Deixar esta casa vai ser difícil para mim mas provavelmente num futuro próximo será mais útil e sensato deixá-la por muitas e variadas razões e ir viver para mais perto de Lisboa mas o meu apego vai adiando essa decisão e torná-la mais difícil...

Os vínculos de situações estão muito ligados ao ego, o ego que nos domina e que não deixa espaço para o desapego... nem quer sequer ouvir falar dele... enfim... é outra vez a natureza humana, o ego cega-nos, manipula-nos e leva-nos a situações de onde às vezes é difícil sair...


Tem sido algo difícil o desapego da minha profissão.. que eu obtive por esforço e mérito próprio, vim para Lisboa com 17 anos, estudava à noite, trabalhava de dia, fui mudando de empregos à medida que ia adquirindo graus de estudo, ultrapassei barreiras consideradas difíceis, mais tarde tive o meu próprio escritório que criei do zero e desenvolvi e do qual me sentia (e sinto) muito orgulhoso...  e que obviamente iria prosperar até ao infinito...até porque eu sempre me entreguei de corpo e alma aos meus projetos e talvez por isso eles deram sempre certo. Na sequência do cancro tive de me associar a uma outra profissional que me ajuda imenso atualmente e no final irá dar continuidade ao projeto. Esta decisão permite-me trabalhar com mais tranquilidade de acordo com a minha atual capacidade pois apesar de não sentir quebra na capacidade intelectual, sinto que reduzi a resistência e a velocidade, embora os meus amigos da mesma idade se queixem do mesmo... mas ao mesmo tempo sinto algum sofrimento quando chega o momento de entregar as coisas a outra pessoa... podem dizer-me isso é porque não sabes partilhar.. mas o problema não é a partilha, partilhar é dirigir conjuntamente algo com alguém, aqui é lentamente ir entregando tudo até não restar nada, é diferente...é ir desaparecendo... é quase um sentimento de deixaer de ser necessário... como se estivesse a ser empurrado para fora do mundo... enfim, o tal desapego que é difícil porque mesmo inconscientemente estamos habituados a liderar os processos, a controlar as coisas e não estamos preparados de forma nenhuma para entregar todas as nossas coisas, desvincular-nos delas e ao mesmo tempo é o ego, o poder do ego que nos dificulta o desapego. Mas felizmente senti isso apenas nos primeiros dias, depois aprendi a ver a parte boa e sobretudo a desfrutar... comecei a sentir-me muito mais tranquilo porque já não estava sozinho a viver um problema oncológico grave e ao mesmo tempo com toda a responsabilidade profissional de clientes, empregados, problemas, etc.. senti um alivio muito grande pois podia continuar o meu trabalho de acordo com a minha capacidade e dividir com outra pessoa a direção e planeamento das coisas e ir me desligando a pouco e pouco com paz e tranquilidade tal como dizia a minha amiga...., afinal ela tinha razão.... Obrigado por tudo Ana!

Noutras situações o desapego tem vindo a acontecer de forma natural, primeiro foram as atividades para as quais necessitava de mais resistência tais como correr e montanhismo pois apesar de ainda o continuar a fazer, já não tenho a mesma resistência, não foi fácil aceitar esta limitação mas começou a fazer parte do meu dia a dia... inicialmente as dores nos pés impossibilitaram-me quase por completo de caminhar... e apesar de ser temporário foi um bom exercício para me confrontar com a necessidade de praticar o desapego...A partir daí eu vi claramente que tinha mesmo de o praticar com aquelas coisas em que me seria mais fácil desapegar... no grupo das caminhadas comecei também a entregar toda a logística de preparação... e a preparar outras pessoas para me substituir como guia quando eu não posso e mesmo quando posso mas não quero ser o guia e prefiro entregar isso a outro e desfrutar da caminhada como os outros...


Hoje já com quase 2 anos passados desde que iniciei a medicação... já me é bastante mais fácil desapegar-me de algumas coisas... de alguns vínculos, principalmente dos vínculos que significam controlo, esses têm sido mais fáceis... na profissão, nas caminhadas e noutras situações. Sei que este processo faz parte do meu caminho de aceitação, porque sei que o desapego é inevitável... e se não o praticar regularmente apenas aumento o meu sofrimento... apesar de existirem ainda muitas coisas que me custam a entregar... reconheço que conquistei muita paz e tranquilidade desde que comecei a praticar e a compreender a razão de ser do desapego mas apenas na medida em que o consigo...


Aquele que ata a si próprio uma alegria,
Destrói as asas da vida;
Aquele que beija a alegria enquanto ela voa,
Vive na aurora da Eternidade.


(Livro Tibetano da Vida e da Morte)





quarta-feira, 2 de maio de 2018

A conspiração do silêncio

Falar de morte e de cancro com alguém é um exercício quase impossível... ou pelo menos com probabilidade de escassos interlocutores. Desde que me foi diagnosticado cancro que me é muito difícil falar sobre a doença e sobre as suas consequências, cancro, morte e pós-morte... Não que me seja difícil falar sobre isso... mas porque é difícil encontrar quem me ouça ou quem queira falar destes assuntos... eu falo sobre estes assuntos com a maior das naturalidades, infelizmente eles passaram a fazer parte do meu dia a dia... estão infinitamente integrados na minha vida atual...

É natural que eu queira falar de alguns aspetos da minha morte e sobretudo de algumas das suas consequências... o que vai acontecer com isto e aquilo depois da minha partida... sem dramas... existem aspetos que me preocupam porque afetam os meus entes queridos, a minha família e é natural que tente de alguma forma evitar certos problemas, isto não é mórbido, é uma realidade prática que eu tento resolver enquanto ainda estou vivo e tenho capacidade de alterar determinadas coisas... coisas essas que nunca tinha pensado nelas... obviamente mas que agora passaram a fazer parte das minhas prioridades.

Por outro lado, por vezes sinto necessidade de desabafar, falar nas coisas... nas pequenas coisas que me passam pela cabeça.. nos tratamentos... nos efeitos secundários... sei lá... num sem numero de situações que fazem parte do meu dia a dia... e que direta ou indiretamente têm a ver com o cancro.
Tenho notado uma dificuldade enorme por parte da grande maioria das pessoas em falar da doença, da morte e do pós-morte... vulgarmente quando tento verbalizar alguma coisa ouço respostas definitivas e curtas tais como "Shiuuuu não se fala disso...", "Vamos falar de outras coisas...", "Desculpa mas não me apetece falar disso...", ou então ainda pior.... "Todos vamos morrer, conheço um caso que saiu de casa e foi atropelado...", ou "há... conheço uma pessoa que os médicos já não tinham esperança e ainda cá está...", um leque infinito de respostas que mais não são do que tentativas de finalizar a conversa e mudar de tema.

Eu sei que para as outras pessoas é muito difícil responder a alguém nas minhas circunstâncias... nomeadamente por não saberem o que dizer... muitas vezes apetece-me ser brusco com este tipo de pessoas mas depois lembro-me que estas reações são a sua forma de repudiar a doença e o que ela significa, a morte! e que elas não o fazem por mal mas por lhe ser muito difícil encarar esta malignidade.

Inicialmente pensava que isto se passava só comigo e sofria muitas vezes de solidão por ver que as tentativas de falar no assunto resultavam numa espécie de tortura para os meus interlocutores e isso cortava-me a vontade de falar... simplesmente calava-me ou nem sequer iniciava a conversa... e ainda hoje o faço... mas agora depois de algum tempo passado já me habituei pacificamente a evitar determinados temas.

Há uns tempos andou a circular no facebook uma carta de uma moça que morreu relativamente nova de cancro onde ela se queixava de não ter conseguido falar da morte com ninguém e senti-me nessa altura muito identificado pois também eu sentia essa dificuldade. Mais tarde em conversa com um cuidador de pessoas em estado terminal que conheci num workshop de educação para a morte, vim a saber que essa é uma situação muito comum, inclusive, tem um nome "conspiração do silêncio", trata-se de uma dificuldade que a grande maioria das pessoas tem em falar da morte, não por causa da pessoa que está em fase terminal, embora invariavelmente essa seja sempre a desculpa, a verdadeira causa, é que ao falar sobre a morte, isso confronta as pessoas com a sua própria morte e aí reside o bloqueio real...

É nem mais nem menos do que o reflexo da forma como a sociedade atual encara a morte... hoje em dia evitamos a morte em todos os seus aspetos, fazemos funerais sem vestir de preto para não mostrar a parte má, evitamos o choro e reprimimos todos os sentimentos que mostrem o sofrimento da perda... tentamos fazer luto muito rapidamente ou nem sequer o fazer, evitamos que as crianças convivam com a morte... nem pensar em levar uma criança para um velório ou para um funeral... e ainda por cima achamos que fazemos um bom trabalho ao poupar os mais novos de ver e sentir o sofrimento da morte... que tamanha estupidez!

A morte faz parte da vida e não deve ser escondida nem evitada por ninguém, é um ato natural e próprio dos seres vivos, porquê este tabu? uma das sociedades mais evoluídas em termos de confronto com todo o tipo de situações, conseguiu construir o maior de todos os tabus, A Morte!
Enfim, é toda uma estratégia que a sociedade como um todo faz no sentido de esconder a morte, de não falar nela, de a ignorar... estupidamente e em vão, pois não é isso que a evita.... E nem vou falar aqui naquelas crendices estúpidas, de que não se deve falar na morte porque isso dá azar e/ou atrai a morte.... deve-se inclusive deixar de mencionar a palavra cancro.... enfim... Comportamentos irracionais e obscuros em pleno século XXI.

À volta do doente tudo se cala... tudo evita o assunto, sempre que o doente fala, tenta-se mudar a conversa... evitar a todo o custo qualquer observação à doença.. claro o doente entende perfeitamente e deixa de abordar o assunto não porque lhe apeteça mas porque entende que falar no assunto é um fardo que os seus interlocutores não querem.... e assim acaba por contribuir também para a conspiração do silêncio... É assim, não há volta a dar... não podemos modificar os outros...só nos podemos modificar a nós próprios...

Pela minha parte devo dizer que falar da minha morte é sempre um desabafo que me faz muitíssimo bem... tentar resolver problemas que irão ficar no meu pós morte, é uma coisa que me deixa extremamente tranquilo e bem comigo próprio, porque a morte é senão o mais importante, um dos mais importantes acontecimentos na vida de um ser humano e acreditem que quase todas as pessoas numa situação de fim de vida sentem a necessidade de planear a sua morte e sobretudo os problemas dela decorrentes... é humano... é uma necessidade como outra qualquer... Há coisas que devem ser vistas de uma forma pragmática e sem dramas, mas existem muitos tabus que dificultam essa visão...É o mundo que temos! e assim como aceitamos a doença também temos de fazer um esforço para aceitar o mundo em que vivemos...!

quarta-feira, 25 de abril de 2018

A classe médica e o cancro

A vida de um doente oncológico alem de ser uma montanha russa de emoções é também uma verdadeira diversão no que respeita à classe médica.
Hoje vou contar dois episódios em parte antagónicos que demonstram bem a diferença de opiniões e de atitudes da classe médica perante esta doença, ou talvez isto traduza também a própria evolução profissional dos profissionais.

Quando ainda estava na CUF a tomar o sunitinib, um dia a tensão arterial subiu a 11/18, efeito secundário do medicamento, e eu dirigi-me ao hospital de dia pois era as instruções que tinha, cheguei e um médico já com muitos anos de profissão, mandou dar-me uma medicação qualquer e a tensão começou a descer... Ao fim de um tempo, pelas 16 horas com a tensão já com níveis aceitáveis perguntei se me podia ir embora... o médico olhou para mim espantado e perguntou? 
- onde é que você quer ir? 
- doutor quero ir trabalhar, ainda é cedo e e eu tenho muito que fazer.... 
ele ficou irado e perguntou rispidamente:
- a sua mulher está aí? 
- sim, está na sala de espera.
 Mandou a enfermeira chamá-la e disse-lhe:
- Dê um sedativo a este homem para ele perder a vontade de ir trabalhar, só sai daqui para casa e para a cama...
Eu fiquei a morrer de raiva... acho que me deve ter subido logo a tensão (risos) mas não tive outra hipótese senão aceitar a injeção com o sedativo, aliás não havia alternativa, era um ordem do médico.... e assim me tiraram a vontade de ir trabalhar, lembro-me de ir bem triste para casa, a sentir-me doente e impotente em condições nada agradáveis... 

Em outra ocasião, estava em casa e senti um pouco de febre e como tal digiri-me às urgências ao hospital de Loures, entrei pelas 21 horas, dada a minha doença fui logo atendido, tiraram análises e viram que estava com muito poucos glóbulos brancos e com as plaquetas muito baixas, o que é uma situação de risco elevado uma vez que o corpo sem glóbulos brancos perde  a imunidade e com poucas plaquetas ainda piora mais a situação, fiquei lá toda a noite em observação, as 4 da manhã repetiram as análises e os valores ainda baixaram mais... eram 7 da manhã e eu queria ir embora tinha de ir trabalhar... obviamente..., a medica que me atendeu não me queria deixar sair do hospital, dizia que eu tinha de ficar internado e eu disse-lhe logo, olhe aqui não fico... se não me der alta eu saio pelo meu pé.... quero ir para casa, vou dormir até às 9 da manha e depois levanto-me e vou trabalhar....
A medica, num tom incrédulo disse-me:
- Eu nunca vi ninguém na sua situação, com a sua doença a querer ir trabalhar... nunca me aconteceu... eu vou falar com o meu chefe porque não posso decidir isto sozinha...
Foi para dentro e ao fim de 15 minutos aparece com um ar sorridente e diz-me... olhe o meu chefe disse: - Realmente isso não é muito normal, mas se o homem aparenta estar bem e quer ir trabalhar, deixe-o ir trabalhar....!!!!
Eu fiquei muito contente e claro a medica recomendou-me que se voltasse a ter febre fosse logo ao IPO... 2 dias mais tarde voltei a ter febre e fui ao IPO e quando me tiraram análises viram que tanto os glóbulos brancos como as plaquetas tinham subido relativamente as que tirei em Loures apesar de ainda estarem baixas...

Daqui tiro algumas conclusões:

Há médicos que só vêm as doenças e não vêm os doentes... não se dão conta que numa doença destas a situação anímica do doente é muitas vezes tão ou mais importante do que os tratamentos que prescrevem...

O trabalho e a atividade física de uma forma geral melhoram os indicadores de saúde... neste caso tanto os glóbulos brancos como as plaquetas melhoraram por ter retomado a minha atividade normal ao invés da descida que houve enquanto eu estive no hospital...

Muitas vezes os médicos não ouvem os doentes, quase que os ignoram e isso em doenças destas amplia a nossa impotência e contribui em larga escala para os estados semi depressivos em que se encontram grande parte dos doentes oncológicos...

Outra das conclusões é o mito que se criou à volta dos doentes oncológicos, que estes devem parar... deixar o trabalho... entrar em baixa de doença... ficarem em repouso e abandonarem todas as suas rotinas que impliquem esforço físico ou intelectual... e infelizmente ainda há alguma classe médica que contribui para a sobrevivência deste mito...

Recomendo a todos os doentes oncológicos que tentem continuar todas as rotinas e atividades que tinham antes, na medida do que a sua situação física lhes permita, porque o pior que nos pode acontecer é deixarmo-nos matar pelo estigma do cancro... como dizia alguém hoje no facebook.... "posso morrer de cancro, mas ele nunca me matará!"

Amigos, não se deixem matar pelo cancro.....

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Autopiedade e revolta


Ouço muito falar de revolta e vejo muitos comportamentos de autopiedade, por parte de alguns dos meus colegas de cancro e também de familiares e amigos chegados.... frases como "Não é justo...", "Porquê a mim?", "Eu não merecia isto...", "Sinto-me revoltado...", etc... palavras e ideias que entendo...na perfeição... felizmente que nunca cheguei a passar por esta fase, talvez porque por via de outros problemas anteriores tenha conseguido ultrapassar essa coisa da autopiedade.

Tudo isto são várias faces do mesmo problema que se chama autopiedade, esta autopiedade que nos leva a ter pena de nós próprios e nos prende e aniquila como uma teia onde a aranha apanha a presa... ficar preso nas teias da autopiedade é das piores coisas que nos pode acontecer na vida, no caso do cancro é a mais negra das situações, pois a autopiedade faz-nos escavar cada vez mais fundo num ciclo vicioso sem fim.... Quanto mais pena temos de nós próprios mais pena nos dá a nossa imagem numa espiral negativa que aniquila e asfixia paradoxalmente, cega-nos, leva-nos ao ressentimento, ou seja, à revolta... e a muitos outros os sentimentos negativos que nos poluem a alma...

Tudo isto começa porque todos ou quase todos pensamos que somos pessoas boas, honestas, com bons sentimentos, etc.., pensamos que salvo raras e irrelevantes exceções temos um bom curriculum de várias boas ações... temos tendência a identificar pessoas que têm comportamentos muito piores do que os nossos, esses sim, esses merecem... nós não... todos temos uma lista interminável de pessoas que mereciam ser castigadas pelas mais variadas causas...

Pois eu penso que a autopiedade é o sentimento mais egoísta que existe... ora vejamos.... quando ouvimos dizer "Não é justo..." isso quer dizer que todas as outras pessoas que têm cancro é justo? só nós é que não? ou então "Porquê a mim".... transformemos isto em "Porque não a mim?...." o que tenho eu de especial que os outros doentes oncológicos não têm? isto não é egoísmo? ou "Eu não merecia isto...." e os outros merecem?... "Sinto-me revoltado..." porquê? o que tenho eu de tão melhor pessoa do que os outros que me sinta revoltado por ter o mesmo que eles?... pois é meus amigos a lista de situações é mais ou menos interminável....

Somos pessoas humanas comuns... não somos melhores nem piores... somos diferentes... cada individuo tem a sua idiosincrassia pessoal, mas no geral somos bastante heterogéneos com os demais.... não é assim tão difícil aceitar que a sorte que calhou aos outros quando o cancro lhes foi diagnosticado foi a mesma que nos calhou a nós... o problema é que o nosso egoísmo cega-nos e não nos deixa ver a realidade tal como ela é.... estamos tão focados nas nossas desgraças que nem conseguimos ver as dos outros... essa é a questão principal... muitas vezes basta-nos olhar para o lado e sempre existem casos piores que o nosso... sempre... basta procurar...

Há uns tempos estava no hospital Amadora-Sintra e ao meu lado estava uma senhora que aparentava ter a idade da minha mãe, no incio da quimioterapia e por causa dos efeitos secundários que tinha nos dedos acabamos por conversar sobre isso... a dada altura ela diz bem alto: Estou tão revoltada!!!  repetia .. e repetia... e eu já começava a sentir-me impaciente e perguntei-lhe: então e sente-se revoltada porquê? ela prontamente: Pelo cancro, eu não merecia....!!!! e eu respondi-lhe: Então se a senhora não merecia... acha que as outras pessoas que estão aqui merecem? só a senhora é não merecia? Ela ficou atrapalhada, calou-se e não falou mais e eu pensei... pronto, por causa deste meu mau feitio, acabei de arranjar mais uma "amiga" e vi que ela tinha ficado incomodada... No mês seguinte fui novamente tirar análises como faço quase todos os meses... e quando entrei na sala vi a mesma senhora ao fundo mas não me dirigi a ela e fui até ao guiché tratar da minha consulta e qual não é o meu espanto, quando sinto alguem a tocar-me no ombro e dou de caras com a mesma senhora a perguntar-me como é que eu estava e com uma cara que irradiava simpatia... não sei se foi mesmo da conversa anterior mas o facto é que a senhora estava com outro ar... será que a minha resposta a ajudou? não sei...

A autopiedade limita-nos o campo de visão, impede-nos de sentir gratidão, leva-nos à autoderrota, ao sentimento de infelicidade, e não nos deixa andar para a frente, levantar cabeça e continuar... este sentimento num doente oncológico ou mesmo numa familiar é altamente destrutivo e impede a pessoa de iniciar o caminho mais correto e assertivo da aceitação....

Libertarmo-nos da autopiedade é o primeiro passo para acordar para a nova realidade que temos  e seguir o nosso caminho, procurar a felicidade nos dias que nos restam... aceitar a nossa condição sem dramas e viver, viver o que nos resta com paixão e qualidade!



terça-feira, 27 de março de 2018

Pazopanib, a alternativa e o regresso às Caminhadas


Nos primeiros meses de 2017, os efeitos do Sunitinib estavam a retirar-me bastante qualidade de vida, além de todos os habituais efeitos secundários, o cansaço era cada vez maior, era-me cada vez mais difícil fazer caminhadas com mais 15 kms e as subidas tornavam-se um tormento... de tal forma que comecei a fazer caminhadas apenas quando estava no período de descanso e mesmo assim era quase uma penitência...outros fatores ainda como hipertensão e outros fizeram com que a médica me propusesse a mudança para um medicamento alternativo, o pazopanib que é também um inibidor de angiogénese da mesma linha do medicamento que estava tomar apenas com a diferença que este não tem período de descanso, toma-se todos os dias sem paragens, mas apesar disso é mais facilmente tolerável pelos doentes.

Ela já tinha por diversas vezes abordado esta mudança mas eu opunha-me, pois apesar dos artigos que lia na internet dizerem todos que os dois medicamentos tinham eficácia semelhantes e nenhum estudo havia concluído que um fosse melhor que o outro, eu nas pesquisas que fazia via sempre mais casos de longevidade do sunitinib do que no pazopanib e como sabia que o custo deste ultimo era inferior sempre pensei que fosse política do IPO administrar este por uma questão económica. Mas entretanto percebi e mais que um medico me explicou em consultas de 2ª opinião que a razão porque se viam  mais casos do sunitinib era porque este medicamento era anterior ao sunitinib, pois o primeiro havia começado em 2007 e este em 2011, e os estudos da internet já tinham 2 ou 3 anos daí que os casos de longevidade fossem mais numerosos de um medicamento que de outro...

Assim, aceitei a mudança e os reflexos foram quase imediatos, ao fim de poucas semanas eu já tinha outra qualidade de vida completamente diferente, o síndrome de mão-pé diminuiu muitíssimo, as tonturas e náuseas passaram a ser muito menos, as dores na boca desapareceram e praticamente todos os efeitos se reduziram, com exceção das diarreias que são o efeito mais relevante deste medicamento.

Esta mudança foi como um renascer... continuei com excesso de peso, algum inchaço, a pele deixou de estar amarela mas agora começou a ficar cada vez mais branca... de tal forma que no aeroporto perguntam-se sempre se falo português, eu um gajo tipicamente mediterrânico moreno e de cabelo preto a revelar as minhas origens do sul... agora passo por norte europeu... o cabelo preto passou a castanho claro, de cabelo forte e farto passou a fraco e pouco e a pele branqueou muitíssimo desde que mudei o medicamento, há relatos de indivíduos de raça negra que passaram a mulatos claros com este medicamento... agora no fim de velho, quase louro e pele branquinha... ele há coisas... (risos).

Em consequência desta melhoria, recomecei a fazer caminhadas quase todos os fins de semana como antes... senti-me o ser mais feliz do mundo, era como se Deus me estivesse a dar uma segunda oportunidade de ainda ter uma vida quase normal.....

Nesta nova condição física e anímica senti-me tentado a voltar aos Alpes... falei com a minha médica que tem sido maravilhosa na forma como me dá força a continuar a fazer as coisas que me dão prazer... e ela respondeu-me, mas porque é que não vai? ... e claro com a força que ela me deu lá marquei um subida até aos Alpes Italianos, no maciço do Gran-Paradiso... Mas isso fica para o próximo artigo...