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sexta-feira, 2 de setembro de 2022

 SOBREVIVENTES VERSUS GUERREIROS

O cancro não é uma batalha para ganhar ou perder. As pessoas com cancro não são nem guerreiros nem heróis. Pelo contrário, têm uma doença. As pessoas que têm diabetes ou doenças cardíacas não são rotuladas como combatentes. Não estão a travar uma batalha corajosa com os seus corações após um evento cardíaco. Nem mesmo a COVID merece o estatuto de guerreiro. Ou se consegue ou não se consegue, ou se sobrevive ou não se sobrevive. 

Não lhes é dito que "ter uma atitude positiva" irá curá-los, e que se a doença "vencer" a culpa foi deles próprios. Pensamentos e orações não irão tratar o cancro. Os obituários afirmam que "e assim perderam a sua corajosa batalha contra o cancro". Isto implica que perderam, que não lutaram o suficiente? Eles falharam????

Não somos corajosos ou fortes simplesmente porque tivemos quimioterapia, radiação ou cirurgia. Somos pacientes que estamos a ser tratados por termos uma doença. O cancro é desafiante, doloroso e cansativo, tal como a pneumonia, esclerose múltipla, artrite reumatóide, parkinson e muitas outras doenças. Um diagnóstico de cancro não é um caminho rápido para o heroísmo. Por vezes mata o doente e por vezes os tratamentos funcionam bem ao pará-lo.

Esta semana partiu o ARTUR, um amigo muito próximo, e também um colega da associação, um verdadeiro "guerreiro" como gostam de nos chamar... lutou a sério e com muita garra... so tinha o cancro há 4 anos, no entanto esgotou todas as linhas de medicação, ele era daqueles que tinha muita esperança na cura... não lhe valeu de nada... 

Enquanto eu em 6 anos estou na segunda linha ele em 4 esgotou 5! Não! Não era porque eu fosse mais guerreiro que ele... muito pelo contrário... ele tinha sempre uma atitude positiva e de esperança, mas o cancro dele era considerado agressivo o meu moderado e isso faz toda a diferença...

O cancro não se vence, umas vezes ele deixa-nos sobreviver outras mata... há cancros curáveis e é muito fácil vencer esses cancros, impossível é vencer os incuráveis... dentro do mesmo tipo de cancro há os mais agressivos e os menos agressivos... não se trata de uma guerra...

Não sou nem um soldado nem uma inspiração, mas estou vivo. Um dia esta doença vai acabar com a minha vida, mas por enquanto ainda sou um SOBREVIVENTE!



Até sempre Artur




terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

​​Lembre-se não está sozinho!


O principio da identificação entre pessoas que estão a passar pela mesma situação constitui uma base apoio de entreajuda sem igual. Neste sentido a AC RIM - Associação de cancro do rim de Portugal, criou um grupo de apoio no whatsapp para doentes e cuidadores que está a ter imenso sucesso, quer aderir?

Aderir aqui:

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Grupo de Pacientes Portugueses de Cancro Renal



No inicio deste blogue escrevi em Março de 2018 o seguinte:


"Vou tentar neste blogue transmitir os momentos que passei, bons e maus, tendo como objetivo ajudar a melhorar as vida das pessoas que se encontram em situações semelhantes à minha e se possível criar um grupo de amigos que possamos entre ajudar-nos mutuamente, porque quando entramos neste mundo oncológico sem esperança de cura.... entramos num caminho solitário que amplia a nossa dor e o nosso sofrimento…"


Ora, finalmente um ano depois a semente nasceu e começou a dar frutos…. Há uns tempos fui contactado pela APIR - Associação Portuguesa de Insuficientes Renais para participar numa conferência do IKCC - Internacional Kidney Cancer Coalition trata-se de uma Organização Internacional que visa apoiar as organizações de apoio a pacientes de cancro renal de todo o mundo, que este ano se iria realizar pela primeira vez em Lisboa.

Neste âmbito fui ainda contactado por um médico urologista investigador de carreira internacional, o Dr. Ricardo Leão, da CUF que também me pediu para participar numa sessão da mesma conferencia com outros pacientes de cancro renal e que correu muitíssimo bem.

Todos estes contactos vieram até mim em consequência do meu blogue, pelo que fiquei extremamente feliz por ter conseguido atingir o meu objetivo que estabeleci quando iniciei este caminho.

Um dos principais objetivos de todas estas entidades, em especial do IKCC, seria facilitar a criação de um grupo de pacientes de cancro renal que se entre ajudasse entre si, com informações sobre a doença, tratamentos, alternativas, inovações, troca de experiências que nos possibilitassem participar na tomada das decisões médicas de uma forma informada e consciente e claro também para nos representar perante as instituições.

Logo em plena conferencia tive oportunidade de conhecer outros doentes, um deles uma figura publica que oportunamente se divulgará, grande parte dos médicos que assistiam vieram contactar-nos para nos enviarem os seus pacientes, todos foram unânimes na necessidade de criação deste grupo e dos benefícios que daí poderiam advir quer para os pacientes, quer para a classe médica que nos trata com vista a trazer melhorias para todos.


Desta forma, já criámos um grupo no WhatsApp que já passou a dezena de pacientes, outro no Facebook que ainda está em aperfeiçoamento "Cancro Renal Grupo de Pacientes". Nesta fase estamos a tentar contactar o maior numero possível de doentes de cancro renal para integrarem esta família de pacientes, para que finalmente deixem de se sentir sós, juntos seremos mais fortes!



Grupo de Pacientes de Cancro Renal

Contacto: Francisco  - 969089599

Email : grupo.cancrorenal@gmail.com


Juntem-se a nós!

Conferência do IKCC - Lisboa 2019











domingo, 17 de fevereiro de 2019

A Maravilha das Novas Técnicas




Em meados de Novembro começei os planos para a radiocirurgia, tudo muito meticuloso, ressonâncias magnéticas e tac's para produzir um modelo 3D do meu corpo com o objetivo de estudar a forma de me aplicarem a radiação necessária em cada ponto… Confesso que fiquei maravilhado com a perfeição desta técnica que desconhecia… e ao mesmo tempo receoso pois uma pequena falha poderia por em causa toda esta complexidade e ter resultados desastrosos… entre os quais atingir a medula e ficar tetraplégico. A dificuldade deste tratamento residiu apenas nos planos e na preparação para a aplicação da radio porque o facto de se trabalhar com frações de milímetros implicava a minha total imobilização pois o mais leve movimento poderia levar quantidades enormes de radio para outros órgãos. Como 2 dos pontos a atingir ficavam na cervical tiveram de me aplicar uma máscara imobilizadora da cabeça (na qual não conseguia nem mexer as pestanas), tirar tacs e 2 ressonâncias magnéticas, o que resultou em algumas horas imobilizado dentro da máscara…. mais parecia uma tortura medieval…. enfim…. a parte boa foi que não senti absolutamente nada, mesmo quando intensificaram a radiação.

Os efeitos secundários foram muito fortes, pois não deixei de tomar a químio oral e durante algum tempo sofri os efeitos de ambos os tratamentos que se traduziram num cansaço extremo e numa gigantesca inflamação na garganta que duraram algumas semanas mas, com ajuda médica, tudo se passou e ultrapassou...

Um mês depois fizeram-me novas ressonâncias para verificar o efeito do tratamento e o resultado foi a destruição total das partes moles dos tumores ósseos… Como é óbvio, rejubilei de contente pelo resultado, pois o cancro renal a maior parte das vezes não reage à rádio...  mas adiante vinha a parte menos boa. Uma das vértebras, a C7 estava completamente comida pelo tumor e apenas tinha dentro as respetivas partes moles malignas pelo que a sua destruição provocou a fratura e colapso da vertebra… Esta situação alterava significativamente o prognóstico, uma vez que fraturada a vértebra inviabilizava a aplicação de cimento ósseo.

Após o resultado da radiocirurgia, fui à consulta do neurocirurgião que iria aplicar o cimento ósseo. Na consulta o médico foi direto e conciso… além do cimento ósseo em vários locais da coluna dorsal havia que ser submetido a uma cirurgia clássica à coluna para substituir a vertebra colapsada por uma prótese, placa e parafusos para me devolver a resistência à coluna. Confesso que fiquei um pouco perdido… não fazia parte dos meus planos uma cirurgia à coluna… mas se não havia alternativa e caso não optasse pela cirurgia o resultado seria o colapso total da vertebra o qual atingiria a medula e o cenário seria novamente a tetraplegia… mais uma vez não tive alternativa e não tive outro remédio senão submeter-me à cirurgia….até porque o plafond do seguro havia sido renovado no inicio do ano...

No final de Janeiro fui operado na CUF, a cirurgia correu bem, substituíram-me a dita vertebra por uma prótese, aplicaram uma placa e parafusos para devolver a resistência à coluna e ainda me aplicaram cimento ósseo em 4 locais da dorsal… Foi uma operação complexa e morosa… o único problema foi que acordei a perna direita totalmente dormente…. O choque foi terrível, na minha cabeça só passava o cenário de eu não conseguir andar… pois a dormência era muito grande e intensa e isso só provocava um filme na minha mente. No dia seguinte fui transferido para o quarto e o médico foi me colocar de pé….. eu conseguia andar… mas sentia-me a cambalear pois o pé dormente não tinha a mesma sensibilidade e nessa noite não dormi pois eu achava que não conseguia andar sozinho…. perguntei - me como é que ia continuar a minha vida, se ficaria dependente... foi uma noite terrível… mas durante a noite levantei-me várias vezes até porque não conseguia dormir...e consegui andar sozinho sem a ajuda da minha mulher que ficou no quarto comigo…

No dia seguinte já tinha mais sensibilidade e já sentia melhor o chão e já não cambaleava… embora andasse muito devagarinho… já era um começo. Desta vez fui muito abaixo… mas lentamente começava a voltar a esperança de recuperar o andar, pelo menos o necessário para continuar a minha vida sem dependência. No dia seguinte vim para casa e já conseguia ir até a rua tratar dos pássaros… depois comecei a dar pequenos passeios ao redor da casa, ao quinto dia, no sábado seguinte já consegui ir ao café da minha rua e andar 1,5km..... e aí sim, fiquei muito feliz porque  senti que era apenas uma questão de tempo e conseguiria andar quase normalmente. No dia seguinte aumentei para 3 km e na segunda já consegui 4,5km a andar normalmente.


Durante a segunda semana, já fui trabalhar e ter uma reunião com clientes, comecei a conduzir e praticamente tudo normalizou, apesar de continuar com a perna dormente a mobilidade da mesma aumentou e recuperou na totalidade, enquanto a dormência tem vindo a diminuir mas muito lentamente. Hoje posso dizer que recuperei a mobilidade totalmente, mas ficou-me de recordação uma dormência que vai do pé até à anca ainda que felizmente cada vez me incomoda menos. Sei pela cintigrafia que também tenho sinais de lesões no ilíaco e no fémur… mas cada coisa a seu tempo… agora o que estava pior era a cervical… mais adiante se pensará no resto.


Desta vez senti que temporariamente perdi a força para lutar, foram dias e noites terríveis, com crises de ansiedade, sempre a pensar que seria melhor partir do que ficar dependente… mas lentamente fui-me reconstruindo, fui ganhando esperança, força e a espiral negativa transformou-se numa espiral positiva que me ajudou e empurrou definitivamente para a recuperação… Afinal no processo do cancro é normal que algumas vezes desçamos ao fundo do poço e que pelo menos, temporariamente, percamos a esperança e desejemos partir. É humano e faz parte das nossas defesas naturais… quando achamos que já não vale a pena continuar porque isso implica perdermos toda a qualidade de vida, é natural que sintamos vontade de partir mas….


Há que, ao mesmo tempo, procurar vislumbrar o caminho da recuperação e perceber que isso nos dará força suficiente para aguentar e começar a reagir ….

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Progressão da doença

Pois é caros amigos… o inevitável acabou por acontecer… Depois de vir do Peru comecei a sentir algumas dores nas costas e num braço, aparentemente parecia ser apenas uma contractura, mas as dores aumentavam… tornavam-se insuportáveis… depois de varias idas à urgência do IPO sem qualquer diagnóstico conclusivo, pois através das radiografias nada se conseguia ver... acabei por pedir um tac ao meu médico da Fundação Champalimaud e o inevitável confirmou-se, a doença tinha se instalado na coluna vertebral, mais propriamente na cervical e dorsal e ainda num arco costal, onde o tumor havia sido o causador de uma fratura da costela.

E claro, o veredicto! esta evolução da doença significava que a atual químio oral, o meu tão amado Pazopanib tinha deixado de fazer efeito, o cancro conseguiu criar resistência ao medicamento e como em tantos casos semelhantes… avançou!

Foram horas e dias difíceis, principalmente porque além das "dores" psicológicas, as dores físicas eram muito fortes e desesperantes… uma médica do IPO disse-me, meu amigo, a dor oncológica é das piores dores do mundo… e de facto assim é... pois à dor física dilacerante junta-se a dor psicológica da falta de esperança…

Então passei à segunda linha… pedi à minha médica que me fosse administrado o Nivolumab tal como referem as guidelines internacionais sobre a atual medicação do cancro renal…. mas tal não me foi concedido, isto é, foi-me sugerido que aceitasse outro medicamento, o Axitinib pois caso passasse ao Nivolumab perderia o acesso àquele medicamento pois as normas do IPO não permitiam tomar o Axitinib depois do Nivolumab.

Devo dizer que até hoje ainda não consegui compreender esta norma interna do IPO nem consegui que nenhum oncologista me explicasse a razão da mesma…. penso que se prenderá sim e apenas com questões económicas relacionadas com o custo da medicação… mas enfim, é o país que temos… é o sistema nacional de saúde que temos… é a política que temos e que por ironia nós elegemos periodicamente…

Claro que perder o acesso a uma linha de tratamento num tipo de cancro como o meu que reage a tão poucos medicamentos seria uma perfeita loucura da minha parte e uma opção suicida… A diferença principal entre os dois medicamentos, é que o Axitinib é um medicamento com o mesmo principio do que tomava antes mas mais forte e por isso com muito mais efeitos secundários nefastos… enquanto o Nivolumab é uma imunoterapia, muito menos agressiva para o corpo e que por norma proporciona uma muito maior qualidade de vida para os pacientes e que em cerca de 25% dos casos permite longevidades enormes quando comparado com os restantes medicamentos existentes.

A minha médica foi excepcional e acompanhou o processo de uma forma ímpar naquilo em que me podia ajudar e conseguiu retirar-me uns bons 80% das dores com medicação apropriada e devolver-me assim alguma qualidade de vida. Depois disso comecei a reerguer-me, o passo seguinte seria a radioterapia paliativa apenas com o objetivo de tirar as dores mas ao mesmo tempo avisavam-me que uma das metástases estaria a afetar as primeiras vertebras, a C1 e C2 e isso obrigar-me-ia usar colar cervical com o objetivo de me proteger e evitar uma fratura e possível tetraplegia. 

Como a radioterapia no IPO estava com algum atraso em termos de resposta, procurei a fundação Champalimaud, uma vez que ainda tenho o seguro de saúde apesar do baixo plafond. Aí a resposta foi diferente, falaram-me numa espécie de radiocirurgia, isto é, radiação em doses muito elevadas mas ao mesmo tempo milimetricamente localizadas o que permitiria destruir as células cancerígenas com efeitos secundários diminutos…. e posterior injeção de cimento ósseo nos locais das metástases por forma a melhorar a resistência óssea, processo este que seria exequível dentro do meu plafond! E sobretudo que a minha condição física era boa o que permitiria aplicar este tratamento.

Uma esperança ao fundo do Túnel, uma luz que me permitiu olhar de outra forma e reerguer-me cheio de vontade e de ânimo… afinal que tinha a perder? Se não fizesse nada, a prazo tinha o possível colapso das vertebras e suas tenebrosas consequências… Muitas vezes há que nos recentrarmos e procurarmos ser objetivos e frios…. há que procurar outras opiniões... outras respostas… não temos nada a perder e temos muita coisa em jogo… há que sobreviver no desconhecido… há que aproveitar as oportunidades e sobretudo HÁ QUE NÃO DESISTIR!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

A Solidão do Cancro

O cancro é uma caminhada de solidão.... O sentimento de solidão nos doentes oncológicos está relacionado com diversos fatores, primeiro pela forma como o próprio doente encara a doença... depois pela própria representação social do cancro, pelas as alterações físicas causadas pela doença e pela conspiração do silêncio.


A primeira fase da solidão começa no diagnóstico... pois mesmo que todos os nossos amigos fiquem ao nosso lado a tentar acarinhar-nos e dar-nos o seu apoio, a nossa sensação é que eles não nos entendem, não sabem pelo que estamos a passar, não sabem o que pensamos, não sabem o que nos preocupa, não conseguem atingir nem de perto nem de longe o nosso sofrimento, as nossas preocupações, as nossas angústias, os nossos medos, os nossos anseios, etc... Esta é pois a primeira fase da solidão, o sentir que ninguém que não tenha passado por um processo semelhante ao nosso nos entende... este tipo de solidão é pois intrínseco à doença... não depende dos outros, só depende da forma como nós o doentes consigamos ou não ultrapassar este nosso limite. Esta solidão que provocamos a nós próprios é talvez a mais difícil de superar pois nem sempre temos a força necessária para nos libertarmos dela e é nesse contexto que assistimos numa primeira fase a um afastamento de muitos doentes oncológicos da sua rede de amigos e contactos... por sua própria iniciativa.


Também existe a solidão provocada pelos outros... a conspiração do silêncio... o facto é que o cancro carrega um estigma de morte muito forte, e muitas pessoas não sabem como lidar com quem foi diagnosticado, porque não sabem lidar com a morte. Então, é muito comum as pessoas afastarem-se, elas não se sentem confortáveis ao nosso lado e os doentes oncológicos ficam ainda mais sozinhos... em alguns casos até mesmo os familiares se afastam. No início ficamos um pouco tristes mas depois acabamos por entender e respeitar a escolha deles sem ressentimentos ainda que com alguma tristeza e no fim compreendemos que a grande maioria das pessoas não estão preparadas para viver perto de quem tem um problema de cancro.


No nosso percurso acabamos por ficar confinados aos familiares mais chegados.... e alguns amigos que ou já passaram por processos idênticos ou então são daqueles mesmo verdadeiros que apoiam até ao fim... Temos que entender, e isso é fundamental para nós, que é muito difícil a quem não passou por este processo que nos entendam e nos consigam apoiar... é uma realidade com a qual temos de aprender a viver e sobretudo a não criar raivas nem ressentimentos porque se o fizermos pior será para nós... Num estudo sobre a morte feito no Brasil, 48% dos entrevistados consideraram depressivo falar sobre morte e 28% consideraram mesmo mórbido, 45% responderam não se sentir à vontade para ir a funerais e velórios. Há quem diga que estamos "matando a morte" de tanto tentar ignorá-la...


No mesmo sentido, quando há progressão na doença também se assiste a uma debandada dos amigos, pois a progressão remete imediatamente para uma fase mais próxima da terminal e ninguém aguenta ver os amigos numa fase terminal... e finalmente a última fase, a das alterações físicas, em que o doente fica mesmo confinado ao seu círculo mais restrito... embora pense que nessa fase, nem mesmo o próprio doente se sinta muito à vontade com os seus amigos pois a simples ideia de lhes causar algum tipo de choque e provocar a sua "pena" não parece lá muito agradável...
O doente oncológico tem então mais um desafio pela frente... não menos difícil que os outros... aceitar o afastamento de alguns amigos... de uma forma serena... sem raivas nem ressentimentos e como? tentando compreender os porquês de tais comportamentos ao invés de ressentir as consequências desses comportamentos... tentando entender a fragilidade dos seus amigos e as suas limitações emocionais e sobretudo perdoando esses seus comportamentos e não deixando que os mesmos aumentem a sua tristeza... 
Nós não podemos modificar os outros... só eles próprios o podem fazer.. se o pretenderem e se conseguirem... Nós só podemos modificar-nos a nós próprios no sentido de entendermos os outros e não nos deixarmos levar por sentimentos negativos de rejeição ou ressentimentos pois eles não nos ajudarão em nada e apenas contribuirão para gastarmos as nossas energias...

Tenham uma boa semana!






quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Seis coisas que não devem dizer a uma pessoa com câncro

Numa das minhas habituais pesquisas sobre cancro, encontrei na página do El País - Brasil um título que me chamou a atenção e no qual me identifiquei na perfeição. Como sei que este blog é lido por muitas pessoas que não têm cancro, achei que seria uma boa oportunidade para tentar elucidar as pessoas sobre aquele tipo de asserções que não têm normalmente o impacto que pretendemos quando falamos com pessoas com doença oncológica e podem mesmo ter o resultado contrário. O artigo foi feito pela Associação Espanhola Contra o Câncer (AECC) e pelo Grupo Espanhol de Pacientes com Câncer (GEPAC) e refere o seguinte:

1. “Não se preocupe, não vai acontecer nada”: O GEPAC afirma que naturalizar não é sinônimo de relativizar, afinal, “um diagnóstico de câncer é uma das situações mais difíceis, estressantes e que mais assustam nossa sociedade. Poucas doenças causam tantos problemas que afetam nos níveis cognitivo e emocional”. Não esqueçamos que ainda que hoje em dia, com os exames, diagnóstico precoce e novos tratamentos, os prognósticos sejam mais favoráveis, existem fatores como “sua cronicidade, a incerteza sobre sua evolução, efeitos colaterais dos tratamentos e conotação social da palavra câncer que geram mal-estar psicológico” .

2. “Você tem que aceitar receber ajuda”: Muitas vezes, tentando ajudar, o que fazemos é nos tornar superprotetores e nos empenhamos para criar necessidades que essa pessoa, talvez, nem tenha. Frases do tipo: “Você tem que falar com alguém”; “tem que desabafar”; “você tem que parar de trabalhar; “você tem que pedir ajuda”; ou qualquer outra que comece com “você tem que...”, segundo a AECC, “só geram insegurança no paciente. A ajuda deve ser oferecida, não imposta. Quando uma pessoa é diagnosticada com câncer, não se transforma em outra pessoa, continua sendo ela, com sua capacidade de pensar, de tomar decisões e saber o que quer e o que não quer fazer”.

3. "Se você for positivo, vai se curar": É uma das frases destacadas pelo GEPAC, porque, além de não ser correta, pode gerar uma grande frustração. Ser diagnosticado com câncer não é uma notícia positiva, e, claro, o paciente, como qualquer outra pessoa em qualquer outra circunstância da vida, terá momentos melhores e piores. “Existe uma tendência muito enraizada de pensar que a atitude que o paciente tenha durante a doença irá determinar o progresso da mesma. Portanto, é muito normal que os pacientes ouçam frases como: “Você tem que ser forte e lutar”; “você tem que ser positivo”; sua atitude faz parte da cura”; “você vai ver como tudo vai correr bem, mas depende de você”; “se estiver desanimado, a doença perceberá isso” etc., destaca a AECC. Tais comentários geram uma enorme pressão sobre o paciente, que não consegue estar sempre feliz e positivo, já que o “normal é ter medo, tristeza, raiva e desesperança, de modo que a imposição do positivismo só gera um sentimento adicional de culpa”.

4. “É a pior coisa que poderia acontecer com você”: Embora seja conveniente entender que a pessoa possa ter seus altos e baixos, o que certamente não ajuda é contribuir com nossa negatividade em seus maus momentos. “Há pessoas que confundem drama com empatia e pensam que o paciente se sente acompanhado e compreendido diante de expressões como: “Que horror passar por isso”’; “é a pior coisa que poderia acontecer com você”; “o câncer, já se sabe...”; “sua família deve estar arrasada”... Tais afirmações aumentam o medo que o paciente tem da doença e intensificam seus níveis de angústia”, afirma a AECC. O GEPAC recomenda, em vez disso, melhorar a comunicação com “ferramentas para conviver com a doença”.

5. “Não diga isso”: Muitas vezes, sem perceber, impomos à outra pessoa o que ela deve dizer, pensar ou mesmo sentir, o que a AECC explica como sendo uma “imposição de emoções que o paciente não sente e a recusa em permitir que expresse o que realmente sente”. Assim, surgem expressões como “não chore, você tem que ver a parte boa”; '”não diga isso, porque sua família tem de vê-lo bem; “você tem que estar feliz, porque foi diagnosticado a tempo”. Na opinião da AECC, “essas expressões levam o paciente a lidar com suas emoções na solidão, quando o que realmente precisa é de alguém para dizer “fale como se sente” e que não lhe interrompa, e sim valide suas emoções, sem tentar negá-las ou mudá-las.

6. “Aconteceu o mesmo com minha tia”: Hoje em dia, é difícil não ter alguém próximo que tenha tido a doença, mas nem todos os tipos de câncer são iguais, e as pessoas não o experimentam da mesma maneira. “Comparar a situação do paciente com a de outras pode ser muito contraproducente, uma vez que cada caso é completamente diferente. O paciente sabe disso e não é capaz de se identificar com outros casos.” Além disso, o GEPAC também recomenda evitar frases como “tal pessoa é fenomenal”; há um artigo muito bom que diz...”; “li que há um novo tratamento que cura o câncer...”, porque podem gerar expectativas que não estão relacionadas com a doença concreta do paciente.

Pois é meus amigos, por favor... parem de atentar as pessoas com cancro com este tipo de asserções... já tive a "felicidade" de experimentar todo este tipo de frases e as que mais detesto são "Se você for positivo, vai se curar", “Aconteceu o mesmo com minha tia” e “Não diga isso” e posso vos garantir que o sentimento não é bom e o que acontece é eu não continuar a conversa porque alem de ser inútil leva-me a espaços onde não me sinto bem e então corto e mudo de conversa.... até porque se me opuser a outra parte vai aumentar a ofensiva e as coisas ficam ainda piores...

Primeiro, cada tipo de cancro é distinto e não tem comparação com os outros que conhecemos... nem nas características, nem no tratamento, nem na progressão da doença, aliás... o mesmo tipo de cancro tem evoluções distintas em cada caso, pois a complexidade é tão grande que até o tecido onde o tumor se forma, tem influência na progressão..... depois caiam na realidade, o positivismo não cura..., o cemitério está cheio de pessoas que acreditavam que se iam curar....  e parem de dizer as pessoas com cancro o que elas devem dizer e pensar... é inútil e deixa as pessoas angustiadas...

Por fim quero pedir desculpa a todos o que leram este texto e que de alguma forma me disseram coisas destas ou afins porque nós os doentes oncológicos sabemos perfeitamente que a intenção das pessoas que dizem este tipo de coisas, é tão somente ajudar-nos e dar-nos algum contributo positivo e por isso eu entendo e compreendo este tipo de coisas... e não fico a pensar mal das pessoas que têm estas asserções... mas muitas vezes a única ajuda que nos podem mesmo dar é apenas ouvir-nos... pois ao escutarem-nos sabemos que estão ao nosso lado a ouvir-nos e isso conforta-nos muito mais do que possam pensar....

Tenham uma boa semana!


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Gerir emoções

Na nossa actual cultura e sociedade está de alguma forma implícito que sentir algumas emoções é mau. Não devemos mostrar-nos tristes e o choro deve ser evitado, existindo uma pressão social para estarmos sempre bem dispostos e sorridentes, para isso evitam-se as situações que de qualquer forma possam gerar sofrimento, chamam-lhe energias negativas e fogem delas... tentam viver ad eternum em felicidade plena... e como isso não existe vive-se numa espécie de ilusão forçada que só tem feed back nas redes sociais como o facebook e instagram, pois aí sim pode-se construir uma vida de sonho para mostrar aos nossos amigos, os quais, de uma forma geral, fazem a mesma coisa... e descobrimos que afinal somos todos felizes e temos todos vidas de sonho....

Mas a realidade é muito diferente disso... as emoções vivem par a par connosco, fazem parte da nossa sensibilidade pessoal... e muitas vezes é nos extremamente difícil conseguir travá-las, outras vezes é mesmo necessário deixarmos que a emoção nos deite abaixo para depois nos podermos reconstruir com as novas realidades...

Em termos emocionais costuma-se designar o processo oncológico como uma montanha russa, pois no espaço que medeia entre o inicio do diagnóstico e a partida da morte muita coisa se passa, mais ou menos conforme cada sobrevida de cada situação... pois nós não somos diagnosticados e morremos no dia seguinte... Não! Todos temos um, mais ou menos, longo caminho a percorrer até partirmos...

No day after começa o processo, há alturas em que conseguimos desfocar completamente da doença e sentimo-nos bem, normais.. quase como se nada se passasse... é normal... é humano... eu diria que é mesmo uma necessidade...  outras vezes aflora do nada um simples pensamento e abre-se a torneira da emoção em modo autónomo, crava-nos com as suas garras poderosas e só nos larga quando quer... a alegria dá lugar à tristeza mórbida que por sua vez dá lugar a um estado semi-depressivo de medo, tristeza, desgosto, raiva, desespero... sei lá... um leque tão vasto de emoções que se torna difícil de explicar por palavras, é a célebre "montanha russa" dos doentes oncológicos.

Então o doente oncológico vivendo nesta montanha russa emocional que pode fazer?

Viver ao sabor da montanha russa ou viver com a montanha russa.

É que meus amigos, é impossível eliminar esta gradação emotiva no dia a dia mas é possível conviver com ela de uma forma mais ou menos saudável... para isso é necessário algum treino... e sobretudo aprender a identificar quando podemos e devemos travar as emoções e quando as devemos deixar extravasar... esse é o ponto fulcral ou o busílis da questão....

É que se vivermos sempre com a emoção à flor da pele, paramos na doença, antecipamos o fim, antecipamos o sofrimento e não deixamos sequer que outros sentimentos ocupem o seu espaço natural pois a emoção domina tudo.. Ninguém consegue levar a sua vida para a frente se se deixar levar permanentemente pela emoção... O doente oncológico deve combater o mais possível este princípio, e tentar dominar a emoção é o primeiro passo para levantar cabeça, para começar a caminhada para a frente... independentemente do diagnóstico... Mesmo nos mais negros... Porque a emoção a maior parte das vezes derrota-nos, deixa-nos num estado miserável de autopiedade que é de todo evitável... e as consequências já as conhecemos...

Na minha experiência pessoal, tento viver com esta emotividade mas da forma mais controlada possível, muitas vezes só o consigo desfocando a minha atenção para outras coisas tais como o trabalho, hobbies, etc... É sempre esta a forma como consigo melhor lidar com a emoção.

No entanto há alturas que temos mesmo de deixar vir a emoção ao cimo porque enfrentamos fases de luto, porque temos que lidar com as perdas e todos os dias ou quase todos o doente oncológico se confronta com situações de perda, perda porque subiu a tensão quando estávamos com tudo controlado, perda porque desceram as plaquetas e não há medicamento nenhum para as subir, perda porque um doente nosso conhecido, com o mesmo tipo de cancro que nós, partiu e deixou um vazio e um aviso que nos remete para a nossa própria morte... perda por ver que temos de deixar de fazer coisas que gostávamos... e provavelmente nunca mais as poderemos fazer... perda por verificarmos que temos uma nova situação com novas limitações.. tanto motivos possíveis... perda porque o cancro avançou e nós não o esperávamos, outras vezes até o esperávamos mas isso não diminuiu em nada a nossa perda... 

O processo oncológico é um processo de lutos e de perdas permanente, a todo o tempo vão existir situações de perda.. pelo que é fundamental tentar controlar a forma como vivemos e resolvemos interiormente estas perdas e consequentemente as emoções que lhes estão intrínsecas... quando enfrentamos as perdas temos de abrir as portas da emoção para curar e lamber as feridas, muitas vezes é necessário chorar para aplacar as nossas angustias... é necessário...é humano... é uma das formas de auto cura natural... mas convém que o saibamos fazer, de uma forma controlada, isto é.... quando é mais cómodo, quando estamos sozinhos e podemos desabafar ou então quando estamos com alguém com quem nos sentimos melhor... tudo isto depende caso a caso...
Já houve situações em que não consegui controlar a emoção e foi complicado e angustiante. Lembro-me uma vez que vinha no metro em Lisboa, ocorreu-me um pensamento que me provocou lágrimas, o metro vinha cheio e senti os olhos rasos de lágrimas, algumas ainda caíram... as pessoas aperceberam-se e senti-me mal... mas limpei os olhos e recuperei a postura... depois mais tarde quando estava sozinho e à vontade relembrei o pensamento e voltei a emocionar me mas desta vez estava à vontade e deixei soltar toda a emoção... bati no fundo e reconstrui-me com mais segurança... chorar faz bem... mas quando queremos... porque se for desordenadamente não conseguimos fazer nada....

Com o tempo aprendi a controlar as emoções e quando começo a sentir que um pensamento me vai provocar emoção imediatamente tento focar me noutro assunto e costuma resultar.... Depois assim que fico com mais privacidade.... revivo o pensamento e deixo fluir.... ou seja, não se trata de bloquear a emotividade, trata-se de a tentar controlar de forma a que venha quando nós a estamos mais aptos a sentir... e a aproveitar para que essa emoção nos toque de forma mais construtiva e menos destrutiva...

Isto não se consegue de um dia para o outro.... há ainda situações que não domino e haverão sempre algumas que não dominarei, mas o facto é que com algum treino consigo controlar minimamente a parte emocional, não a espartilhando mas controlando-a de forma a conseguir viver com ela de uma forma menos dramática e sobretudo a evitar que a emoção domine a minha vida e me ampute daquilo que pretendo fazer e sonhar no tempo que disponho... ter ainda alguns momentos de eternidade e viver o tempo que me resta junto de quem amo com o melhor bem estar possível e sem dramatismo.....

Carpe Diem!




sábado, 17 de novembro de 2018

PARABÉNS HELENA!


Vou aceitando o meu final aos poucos conforme consigo, com avanços e recuos na aceitação, com momentos de tristeza e dor, um dia de cada vez... mas ainda consigo ter momentos felizes de eternidade... é preciso procurá-los, a felicidade não vem de fora, vem de dentro... há que construí-la.... 

À primeira vista parece que consegui superar as dificuldades e que estou em perfeita e maravilhosa aceitação e em parte é verdade... mas não se iludam... não sou heroi... nem penitente... nem um caso fora de série... tenho alguma força interior é verdade... sou positivo... sou lutador... tenho algumas características que ajudam neste processo... mas que seria de mim sem o suporte que me ajuda no back office? como estaria eu hoje sem os meus cuidadores? a minha base, o meu back office.... a minha familia... a minha mulher e os meus filhos... diz-se na giria "por detrás de uma grande homem, existe sempre uma grande mulher" pois é.... e podem crer que é verdade...

Eu não consigo imaginar como seria a minha vida pós-cancro sem o amor incodicional da minha mais que tudo... não consigo imaginar como seriam as minhas noites sem o aconchego e o carinho da pessoa por quem eu um dia me apaixonei, não consigo imaginar com quem eu me riria ao serão e ao jantar de coisas parvas e simples apesar da doença... não consigo imaginar como seria ter que aceitar o meu destino oncológico sem amar alguem, ou não ter o amor desse alguém... não consigo imaginar como seria não partilhar a minha dor e as minhas pequenas vitórias e alegrias sozinho sem a pessoa que eu amo... não consigo imaginar a vida sem ti HELENA!

Fomos um casal normal com todos os problemas dos casais normais, altos e baixos, muitas zangas e amuos mas sempre com reconciliações ao mesmo nível, ou não fossemos touro e escorpião, fomos criando laços fortes ao longo da vida, fomos vivenciando as nossas vitorias, as nossas tristezas, as nossas alegrias e as nossas decepções... mas ao mesmo tempo fomos quase que inconscientemente criando laços muito fortes que ao invés de nos separarem nos uniram e fizeram com que chegássemos aqui...

O cancro ao invés de nos separar veio mostrar os laços fortes que sempre existiram entre nós e veio sobretudo mostrar-me a natureza da companheira de uma vida.... Felizmente tenho uma companheira que me torna os dias mais fáceis, eu sou lutador é verdade, mas sozinho não faço milagres... Sempre do meu lado ou na minha rectaguarda, sempre pronta, é uma admiração extrema...é uma gratidão do tamanho do mundo, é um amor inexplicável... é uma forma de vida...

Eu tenho o maior respeito pelos cuidadores conjugues, homens ou mulheres...tanto faz, eles vivem os nossos problemas quase na 1ª pessoa, eles são a primeira pessoa a quem nos queixamos, eles sabem todos os nossos problemas ao pormenor... eles vivem o dia a dia deles a pensar e a tentar resolver os nossos problemas, eles sentem quase tudo o que nós sentimos... e a acrescer a isso eles vivem também os deles decorrentes da nossa doença, a perda, sim porque eles também têm que lidar com a perda, com a perda do companheiro(a) que somos nós, com as perdas decorrentes da nossa morte, com todas as consequencias que a nossa partida lhes trará no futuro e ao mesmo tempo apoiar-nos, gerir os filhos e amar-nos... afinal eles(elas) são os NOSSOS HERÓIS, sim os nossos verdadeiros herois.... é difícil o papel deles... e não há dúvidas que só conseguem porque nos amam porque caso contrário não teriam forças para tal empresa....

Hoje amo ainda mais a minha mulher.., sem qualquer dúvida ou incerteza... às vezes parece que voltei a apaixonar-me como há uns anos atrás... não sei muito bem explicar esse sentimento, talvez seja a mistura de amor e gratidão que dá um complexo tão forte e explosivo que fico na dúvida se não será paixão!

PARABÉNS HELENA

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Situar-se na doença!


Há pouco tempo andei com tonturas e desloquei-me ao IPO pois numa situação de cancro qualquer sintoma pode ter mais significado do que em condições normais. Fui atendido por uma médica neurologista oncológica que não conhecia e por sinal muito simpática e ao ler o meu historial olhou para mim com um ar feliz e disse-me, sim senhor... já tem aqui uma longa história de sobrevida!
Esta simples frase fez me arrepiar... caiu-me como um pedregulho na cabeça....! Tenho cerca de 2 anos e meio de sobrevida... para mim é tão pouco... e para a médica já era uma longa história?
Obviamente que esta frase da médica traduziu o contentamento dela por eu estar já com este tempo de sobrevida com o mesmo medicamento, pois há quem mude ao fim de 3 meses por progressão da doença e eu entendo que ela me queria demonstrar a sua alegria pelo meu "sucesso"... mas para mim soou como um alerta para a sombra que paira sobre a minha cabeça e que com esta tal "longa historia de sobrevida" muitas vezes esqueço, pois foco-me tanto no meu dia a dia, no hoje, no trabalho, no planeamento das viagens, criação de piriquitos, fotografia e tanta coisa a que me dedico..  Existem dias em que ando tão ocupado com o trabalho e outras coisas que acabo muitas vezes por esquecer até mesmo a doença...! 

Na semana seguinte fui à fundação Champalimaud e desta vez o meu médico de segunda opinião que me vê menos vezes, pergunta-me:
- Há quanto tempo está na 1ª linha de medicação?
- Há dois anos!... respondo eu!
E ele diz-me:
- Já está acima da média! muito bom!

Eu ainda não estava refeito da frase da outra médica e novamente a mesma sensação! e claro, pelas mesmas razões... já estou um pouco acima das estatísticas, é verdade... até porque as estatísticas do cancro renal são muito pouco animadoras (qualquer coisa como 5 a 8% de sobreviventes ao 5º ano) mas esta aparente "estabilidade" não é obviamente muito fiável, primeiro porque desde que iniciei a medicação os nódulos nunca diminuíram e isso só por si é um claro indício de fragilidade e por outro lado porque este tipo de cancro é sempre muito imprevisível mesmo para os médicos...

E assim dei de caras com mais um constrangimento (que na realidade não o é) resultante da doença. Como até aqui não estava acima da média, no Amadora-Sintra o médico que fez o pedido do medicamento disse-me, espero não estar a negociar consigo a segunda linha antes de 1 ano... ora eu já levo 2 anos e meio de sobrevida e 2 anos de toma da 1ª linha.. é compreensível este tipo de reações dos médicos, afinal são um ótimo sinal principalmente para mim!

Tudo isto torna esta situação muito relativa, e ao mesmo tempo ajuda-me a situar na doença, é importante a pessoa saber situar-se na doença porque isso permite não gerar falsas expectativas mas também não viver no medo permanente.... ter a consciência das coisas é sempre bom, por mais que hajam pessoas que acham que não se deve informar os doentes... É terrível uma pessoa chegar ao estado terminal e ver que foi enganado pelo médico em quem depositou toda a confiança... e sobretudo porque não saber a verdade implica não ter tempo para a preparação da morte!

A toda gente que tem um processo de doença seja ela oncológica ou não sugiro que tentem situar-se na doença pois essa é a atitude mais adequada que nos permite ir gerindo as nossas expectativas e a nossa vida da melhor forma possível... não vale a pena fazer de conta que não se passa nada e imaginar cenários irrealistas, assim como também não adianta pintarmos o cenário mais negro do que na realidade ele é... é importante termos consciência das coisas para gerirmos a vida e as expectativas da melhor forma possível!

E já agora para finalizar o texto, as tonturas não revelaram origem tumoral, eram apenas relacionadas com os ouvidos e acabaram por passar...

segunda-feira, 16 de julho de 2018

O Mundo dos Vivos

Desde o diagnóstico inicial que eu vivo a vida muito mais intensamente do que antes, viagens, trekkings, trabalho, quase como uma espécie de hiperatividade... Pode parecer para quem me observa que estou em negação, que pretendo preencher o vazio do cancro com todas estas atividades como uma forma de me esquecer da minha situação ou até como uma tentativa de a ignorar...

No inicio eu não sabia como lidar com isto mas rapidamente as coisas foram-se tornando cada vez mais claras. David Servan-Schreiber no seu livro "Anticancro" escreve "Ao expor a brevidade da vida, um diagnóstico de cancro pode restituir à vida o seu verdadeiro sabor". Dito assim e para quem não passou por esta situação nada parece fazer sentido... A ideia da própria morte parece eclipsar toda e qualquer sensação boa possível.. e é verdade... Para quem não passou por isto, a ideia é tão negativa que absorve toda e qualquer positividade e parece-nos impossível ver alguma coisa boa nestas condições mas quem tem cancro dá de caras com a realidade e pergunta como vou continuar a viver? E é neste paradigma que se centra a vida de alguém a quem foi diagnosticado cancro... como continuar a viver? sim porque mesmo depois do diagnóstico nós continuamos vivos.... a morte não vem no dia seguinte...

No meu caso a proximidade da morte gerou uma mudança de rumo grande, a vida assumiu uma intensidade e uma profundidade que não tinha até aí e comecei a centrar-me no dia a dia, a saborear as pequenas coisas que desfrutava quase sem dar por isso, passei a valorizar o hoje em detrimento do amanhã... passei a centrar me na melhoria dos meus dias... dos dias que me restam... e por isso tento fazer o máximo de coisas possíveis enquanto ainda é possível, porque a probabilidade de não me restar muito tempo é grande... claro que em simultâneo sinto o desespero da partida, é uma sensação semelhante à despedida de uma pessoa que sabemos que não voltaremos a ver.... mas essa é uma condição a que me vou habituando e que vai doendo cada vez menos... embora saiba que essa dor me vai acompanhar até ao fim...

Existe nesta fase uma sensação de última partida que tem de ser feita em paz.. e isso significa que temos uma ultima oportunidade de fazer as coisas que sempre quisemos fazer e concretizar todos os sonhos que pudermos, reatar a relações humanas que fomos perdendo, sentir mais os outros seres que nos são queridos, ou seja.. concretizarmos as nossas ambições! Isto pode parecer cruel e mórbido mas não é... se for encarado com naturalidade e positividade e não como uma fatalidade dramática e infeliz.... porque não o é.... na realidade é mesmo uma ultima oportunidade de sermos felizes!

Neste novo paradigma a minha principal preocupação é continuar a ter uma atividade normal, trabalhar, ser útil como sempre fui, assumir todas as minhas responsabilidades o melhor que conseguir mas ao mesmo tempo não descurar o divertimento e fruição das coisas boas da vida e claro as viagens, as caminhadas, os trekkings, tudo o que me faz sentido e me dá prazer mas acima de tudo sentir que continuo a pertencer ao mundo dos vivos!

Existem muitas pessoas que apesar de não terem diagnósticos oncológicos e mesmo algumas pessoas que nem sequer têm doenças relevantes que vivem num mundo mais de mortos que de vivos e isso tem pouco a ver com as condições exógenas porque é tudo uma questão de atitude perante a vida e perante os problemas que se nos vão deparando, por isso recomendo a toda a gente, que se esforcem o mais possível por continuar no mundo dos vivos!


terça-feira, 26 de junho de 2018

Os Lutos

A semana passada faleceu o meu pai....Uma grande perda para mim e para a minha família... era para todos nós uma referência, quando o caixão descia à terra, alguém que eu não conheço acercou-se de mim e disse-me que eu devia ter muito orgulho no pai que tinha... Isto pode parecer vaidade, mas quem consegue ficar indiferente perante uma frase destas vinda de um desconhecido? É difícil não sentir orgulho nestas ocasiões por mais ascéticos e humildes que sejamos. O meu pai era uma pessoa simples, nasceu há 82 anos numa pequena aldeia do Alto Alentejo colada à Beira Baixa, Amieira do Tejo em Nisa.

Com apenas 12 anos e face aos fracos recursos familiares teve que ir trabalhar para uma terra distante da sua e em tão más condições que tempos depois os meus próprios avós o foram buscar por ouvirem rumores de ser maltratado, meses depois foi trabalhar no ramo do comércio, passou por várias localidades: Ponte de Sôr, Bemposta, Arruda dos Vinhos, Torres Novas e finalmente acabou na fábrica de papel da Renova, onde conheceu a minha mãe e deu origem à prole familiar.

A sua grandeza e razão do meu orgulho nunca passou por estudos ou graus académicos, nem por carreiras de elevado gabarito, foi muito bom profissional no seu ramo, foi uma pessoa íntegra, que sempre gostou de estabilidade, soube fazer amigos, era um homem de paz... não me lembro que tivesse algum dia discutido com alguém, mas tinha as suas convicções e um caminho bem traçado e definido... se a situação não lhe agradava, afastava-se sem cortar relacionamentos.

Nestes últimos dias com a doença, a hospitalização e o velório um grande número de pessoas nos manifestou uma grande estima e afeto pela pessoa que ele foi e mais uma vez pude observar a sua grandeza. Para nós filhos, foi um grande timoneiro, sempre com muita estabilidade, muito prudente e assertivo e que sem grandes alaridos nos deu grandes lições de vida que muito nos ajudaram pela vida fora, uma grande perda, apesar da idade e da situação de doença. Agora é hora de fazer o luto....

O Luto é uma reação emocional a uma perda significativa. É um processo natural e um modo de recuperação emocional face à perda. É um processo necessário e fundamental para preencher o vazio deixado por qualquer perda significativa não apenas de alguém, mas também de algo muito importante, como um objeto, uma viagem, um emprego, uma ideia, etc. Todas as perdas importantes dão origem a um processo de luto. O Luto é marcado por uma natural instabilidade emocional, sinalizada por emoções como a agressividade, estado de choque, ira, solidão, tensão, cansaço físico e emocional, entre outras. Mas os sentimentos oscilam conforme as pessoas que o vivenciam e também em função da gravidade da perda.

O processo do cancro origina diversos lutos por onde o doente oncológico tem obrigatoriamente que passar ainda que cada um o vivencie de forma distinta e lhe dê um grau de intensidade próprio. O luto pode passar pelas seguintes fases:

Negação - Surge a primeira fase do luto, é no momento que nos parece impossível a perda, em que não somos capazes de acreditar. A dor da perda seria tão grande, que não pode ser possível, não poderia ser real.

Revolta - Surge depois da negação. Mesmo depois da perda já consumada negamo-nos a acreditar. Pensamento de “ porque a mim?” em conjunto com sentimentos de inveja e raiva. 

Depressão - A depressão surge quando o individuo toma consciência que a perda é inevitável e incontornável. Não há como escapar à perda, este sente o “espaço” vazio da pessoa (ou coisa) que perdeu.

Aceitação - Última fase do luto. Esta fase é quando a pessoa aceita a perda com paz e serenidade, sem desespero nem negação. Nesta fase o espaço vazio deixado pela perda é preenchido. Esta fase depende muito da capacidade da pessoa mudar a perspetiva e preencher o vazio.

Para fazermos o luto temos necessariamente que passar por todos estes estados cuja intensidade e demora dependerá de cada um.... mas é um facto que todos eles fazem parte do processo de luto, por isso todos são naturais e têm que ser vivenciados...

Quando me foi diagnosticado o cancro passei por quase tudo isto, ainda que a fase da negação e da revolta tenham sido muito ténues e rápidas, a de depressão foi mais lenta e difícil.... e a de aceitação ainda mais lenta do que a anterior, aliás ainda me encontro em fase de aceitação pois ainda não a conclui completamente e se calhar nunca a vou finalizar... vou aceitando na medida das minhas possibilidades...

Neste processo, não há apenas o luto do cancro, há o luto de deixar-mos de ser a pessoa que éramos antes do diagnóstico, há o luto por tudo aquilo a que a doença nos obrigou a deixar e em geral por todas as perdas que vamos vivendo neste processo oncológico... É pois natural passarmos por todas aquelas fases por cada perda que temos.... o que já não é natural, e temos de estar atentos, é ficarmos "presos" numa delas... Não é raro vermos pessoas eternamente em fase de revolta ou de negação, essas nunca chegarão a fazer o luto da perda pois ficaram presos numa parte do processo... Quem está em revolta é porque não aceitou...

A sobrevida do cancro está cheia de lutos, de cada vez que a nossa situação de saúde se modifica, perdemos um "eu" que existia antes, para passarmos a um novo "eu" com novas limitações mas que se aceitarmos essa perda, temos novas oportunidades de alguma felicidade no novo eu... Lembro-me de no inicio sempre que me levantava e me punha ao espelho a fazer a barba ficar muito triste por ver as transformações que tinham ocorrido no meu visual: o inchaço, a pele a clarear, o edema ao redor dos olhos, o aumento da massa gorda, etc... ficava triste sim, mas lentamente fui aceitando, deixei de sentir pena de mim mesmo e libertei-me dessa perda... 


A libertação das nossas perdas é condição sine qua non para continuarmos o nosso caminho, fecham-se ciclos e abrem-se ciclos e temos de os aproveitar com aquilo que temos.... e ir deixando aquilo que já não temos sem raiva nem depressão... Com os nossos entes queridos, há uma necessidade imensa de os libertarmos, de os entregar..., de os soltar... pois só depois desse trabalho efetuado é que começamos verdadeiramente o caminho da aceitação!

Lentamente as nossas recordações de dor dos entes queridos vão sendo substituídas por recordações de serenidade sem dor, por vezes até acompanhadas por sorrisos, é a aceitação... o resultado final do caminho em cada luto!

 
Luto é o tempo necessário para a mente entender o sentimento de perda que o coração já sente! 
(autor desconhecido)